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Consumo de carne curada associado a piora dos sintomas de asma

16/03/2017 - Com Banner

Os sintomas de asma em adultos pioraram ao longo do tempo com o aumento no consumo de carnes curadas, levemente mediado por aumentos do índice de massa corporal (IMC), de acordo com um estudo longitudinal publicado on-line em 20 de dezembro no periódico Thorax.

Carnes curadas já haviam sido identificadas como um fator de risco para câncer, mortalidade por todas as causas e várias doenças crônicas, incluindo doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC).

“Como a carne curada é conhecida por seu alto conteúdo de nitrito, que poderia levar à inflamação nas vias aéreas relacionada ao estresse nitrosativo – um dos diversos processos fisiopatológicos envolvidos na asma – é razoável que o consumo de carne curada seja um fator de risco independente para asma”, escrevem o Dr. Zhen Li, do Paul Brousse Hospital em Villejuif (França), e colaboradores.

“Como a obesidade é um provável fator de risco para incidência e exacerbações de asma”, e a dieta afeta o índice de massa corporal, observaram, “é plausível que o IMC tenha papel causal na via entre dieta e asma”.

Os pesquisadores analisaram dados de 971 participantes, incluindo 42% com asma, que foram recrutados no estudo prospectivo Epidemiological Study on the Genetics and Environment of Asthma (EGEA) entre 2003 e 2007. Os pesquisadores incluíram apenas adultos (média de idade de 43 anos) que completaram o questionário de frequência alimentar e possuíam dados sobre sintomas de asma. Dentro dos 118 itens do questionário alimentar, o presunto (duas fatias por porção), a salsicha (uma salsicha por porção) e a linguiça (duas fatias por porção) foram categorizados como carnes curadas.

Quase metade dos participantes (48%) tinha um consumo médio de uma a 3,9 porções por semana, enquanto 19% consumiam menos de uma porção por semana e 33% consumiam no mínimo quatro porções por semana. Pouco mais de um terço (35%) estava acima do peso e 9% eram obesos; 51% nunca haviam fumado.

Durante o seguimento, conduzido de 2011 a 2013, cerca de sete anos depois, 20% dos participantes relataram piora dos sintomas de asma, definidos como maiores do que zero em uma escala de zero a cinco, e com base em cinco sintomas: dispneia com sibilância, despertar por incômodo torácico, dispneia ao repouso, dispneia após o exercício e despertar por dispneia. A maioria (53%) não teve mudança nos sintomas e 27% tiveram melhora dos sintomas.

Dentre aqueles que consumiam no mínimo quatro porções de carne curada por semana, 22% relataram piora dos sintomas de asma comparados com 14% daqueles que comiam menos de uma porção por semana e 20% dos que comiam de uma a 3,9 porções por semana.

Os pesquisadores utilizaram um modelo estruturado marginal, um tipo de modelamento estatístico usado para inferir causalidade em epidemiologia, para estimar os efeitos diretos do consumo de carne curada nos sintomas de asma dos participantes. Eles avaliaram o uso de outros potenciais confusores na dieta usando dois padrões dietéticos multifatoriais: um com alto consumo de frutas, vegetais, grãos integrais, óleos e peixe; e outro com alto consumo de carnes curadas, condimentos, álcool, sanduíches, batatas fritas, e outras batatas.

Os autores também ajustaram para idade, gênero, história de tabagismo, nível educacional e atividade física, particularmente porque gênero e história de tabagismo já foram previamente associados ao consumo de carne curada. Nesse estudo, aqueles que consumiam mais carne curada tiveram maior probabilidade de serem homens, mais jovens, fumantes, de consumir mais calorias, de ter um maior IMC, de consumir mais sódio e gordura saturada, e de ter asma.

Depois desses ajustes, os participantes que comiam no mínimo quatro porções de carne curada por semana tiveram uma chance 76% maior de piora nos sintomas de asma do que aqueles que consumiam menos de uma porção de carne curada por semana (odds ratio, OR para multivariáveis, 1,76; IC de 95%, 1,01 – 3,06). Quando os pesquisadores consideraram o efeito indireto do IMC nos sintomas de asma, eles determinaram que o IMC foi responsável por apenas 14% do efeito total da influência das carnes curadas nos sintomas de asma (OR, 1,07; IC de 95%, 1,01 – 1,14). No entanto, “nenhuma interação foi observada entre o consumo de carne curada e o IMC nas associações com asma” (P = 0,90).

O efeito indireto do alto consumo de carne curada mediado pelo IMC correspondeu a apenas 14% da associação com a piora dos sintomas da asma, então “o efeito direto explicou uma maior proporção, sugerindo um papel deletério da carne curada independente do IMC”, concluíram os autores. Eles observam, no entanto, que dois estudos prospectivos americanos focaram em diferentes carnes processadas – primariamente bacon, cachorro quente e salsicha – e não encontraram nenhum efeito na incidência de asma depois de ajuste para IMC e outros fatores confusores.

“Esse achado diferente pode resultar do papel do IMC na associação (consumidor versus mediador) ou da avaliação dos fenótipos respiratórios (incidência versus alteração nos sintomas de asma)”, escrevem. Eles também observaram uma perda no seguimento de 15% dos participantes.

Além da possibilidade do estresse nitrosativo e oxidativo danificando os pulmões devido aos altos níveis de nitrato nas carnes curadas, os pesquisadores propuseram dois outros mecanismos pelos quais essas carnes poderiam piorar a asma. O primeiro é um aumento na inflamação sistêmica, considerando associações previamente identificadas entre o consumo de carne curada e a proteína C-reativa. O outro, apoiado apenas por evidências esparsas de asma na infância, é que o alto consumo de sal e gordura saturada pode afetar os sintomas de asma.

A pesquisa foi financiada pela Merck Sharp & Dohme, projeto GA2LEN, Global Allergy and Asthma European Network, e Conseil scientifique AGIR pour les maladies chroniques, um programa de pesquisa clínica do National Hospital. Os autores declararam não possuir conflitos de interesse relevantes ao tema.

Fonte: http://portugues.medscape.com/verartigo/6500807

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