04/04/2017 - Com Banner
O risco de eventos tromboembólicos da maioria dos anticoncepcionais hormonais para mulheres com diabetes é elevado, mas ainda relativamente baixo, mostra uma nova pesquisa.
Os resultados, de um grande banco de dados americano, foram publicados on-line em 29 de novembro no periódico Diabetes Care pela Dra. Sarah H. O’Brien, do Nationwide Children’s Hospital, em Columbus, Ohio, e colaboradores.
Entre cerca de 150.000 mulheres em idade reprodutiva com diabetes utilizando qualquer contraceptivo hormonal, o risco absoluto global de eventos tromboembólicos foi cerca de um por 100 mulheres-ano de uso, com taxas ainda mais baixas observadas para os contraceptivos intrauterinos e subdérmicos implantáveis.
Estas duas modalidades “altamente eficazes são excelentes opções para as mulheres com diabetes que esperam evitar os efeitos teratogênicos da hiperglicemia planejando cuidadosamente suas gestações”, escrevem Dra. Sarah e colaboradores.
Havia preocupação quanto ao risco de eventos tromboembólicos dos anticoncepcionais hormonais combinados em mulheres com diabetes em particular, uma vez que o próprio diabetes também predispõe a tais eventos.
A Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda que sejam prescritos contraceptivos apenas de progesterona para mulheres com diabetes e outros fatores de risco cardiovascular, mas poucos dados prévios estavam disponíveis para anticoncepcionais apenas com progesterona em mulheres diabéticas.
“Esta ausência de evidências pode estar contribuindo para reduzir as taxas de aconselhamento anticoncepcional, prescrições ou serviços para mulheres com diabetes em comparação com mulheres sem uma condição médica crônica”, observam Dra. Sarah e colaboradores.
Contraceptivos aumentam o risco de tromboembolismo, mas as taxas gerais são baixas
Dados sobre o uso de anticoncepcionais e eventos tromboembólicos (trombose venosa, acidente vascular encefálico ou infarto do miocárdio) foram inicialmente analisados no Clinformatic Data Mart de 2002-2011 para 146.080 mulheres de 14 a 44 anos com diabetes tipo 1 e tipo 2. Os dados foram ajustados para idade, tabagismo, obesidade e outros fatores de risco cardiovascular, bem como para complicações do diabetes e história de câncer.
Quase três quartos das mulheres (72%) não tinham prescrições de contraceptivos hormonais durante o período. Cerca de um quarto (24%) recebeu anticoncepcional contendo estrogênio, e 1,5% receberam tanto anticoncepcionais contendo estrogênio quanto formulações apenas com progesterona. A maioria dessas mulheres apresentou falhas na cobertura, fazendo com que apenas 4% (6042) mantivesse uso contínuo.
Apenas 4% (5987) recebeu anticoncepcional com progesterona, incluindo acetato de medroxiprogesterona de depósito (DMPA), um implante subdérmico ou um dispositivo intrauterino (DIU). Destes, apenas 0,5% (680) fez uso contínuo.
Um total de 3012 eventos trombóticos ocorreram no geral, correspondendo a uma taxa total de 6,3 eventos por 1000 mulheres-anos.
As taxas mais elevadas foram para aqueles que usaram um adesivo transdérmico (16,4 / 1000) e menor para DIU (3,4 / 1000) e implantes subdérmicos (0/1000).
Em comparação com nenhuma contracepção hormonal, os anticoncepcionais contendo estrogênio aumentaram significativamente o risco de tromboembolismo, tanto em mulheres abaixo de 35 anos e com 35 anos ou mais (hazard ratios, HRs, 3,38 e 1,79, respectivamente, ambos p < 0,0001).
Para os anticoncepcionais de progesterona, o risco foi elevado apenas entre as mulheres mais jovens (HR, 2,02; P <0,0001) e não para aquelas com 35 anos ou mais (HR, 1,33; p = 0,059).
Em uma comparação direta, o risco de tromboembolismo foi muito menor com os contraceptivos de progesterona do que com aqueles contendo estrogênio, atingindo significância estatística em mulheres com menos de 35 anos (HR, 0,60), mas não nas mais velhas (HR, 0,74).
DIU e os implantes são boas opções
Não foram observadas diferenças no risco de tromboembolismo entre a dose de estrogênio acima ou abaixo de 30 µg (“dose ultra baixa”), ou entre pílulas contendo drospirenona ou desogestrel/gestodene em relação a outros tipos de progesterona.
Embora tenha havido um risco moderadamente maior de tromboembolismo com o adesivo transdérmico em comparação com os contraceptivos orais (HR, 1,68; p = 0,0091), não foram observadas diferenças para o anel vaginal.
Em comparação com as mulheres em uso de DIU, tanto as pílulas apenas de progesterona quanto o DMPA foram associados a um aumento do risco de trombose em cerca de quatro vezes (HR, 3,69 e 4,69, respectivamente, ambos p <0,0001). No entanto, os riscos absolutos ainda eram baixos, de 14,5 e 12,5 por 1000 mulheres-anos, respectivamente.
Somente 124 mulheres receberam prescrição de dispositivos subdérmicos implantáveis apenas com progesterona (Implanon e Nexplanon, Merck) e nenhuma apresentou evento trombótico.
“Atualmente, o diabetes afeta cerca de dois milhões de mulheres americanas em idade reprodutiva”, observam os autores, mas “mesmo entre as mulheres com diabetes ‘não complicada’ – menos de 20 anos de duração e sem doença de órgão-alvo – parece que os médicos evitam contraceptivos hormonais devido a preocupações com efeitos colaterais cardiovasculares.
“Nossos resultados demonstram a segurança do uso da anticoncepção hormonal em mulheres com diabetes tipo 1 e tipo 2. Os contraceptivos com menor risco absoluto foram o DIU e os contraceptivos subdérmicos implantáveis, e estes contraceptivos reversíveis altamente eficazes são excelentes opções para as mulheres com diabetes”, concluem eles.
O estudo foi financiado pela American Diabetes Association. Os autores não relataram conflitos de interesse relevantes.
Diabetes Care. Publicado on-line em 29 de novembro de 2016.