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Incidentaloma adrenal não funcionante é um preditor de síndrome metabólica, diz pesquisa

25/04/2019 - Notícias

Síndrome metabólica é frequentemente encontrada em pacientes com incidentaloma adrenal não funcionante, sendo mais comum nesse grupo do que nas pessoas sem alteração de imagem da suprarrenal, revela estudo publicado em novembro no periódico Clinical endocrinology.

Para os pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), autores do estudo, o fato de essa lesão ser preditora da síndrome metabólica sugere que, na verdade, é possível que não se trate de um tumor propriamente não funcionante, mas que promova pequenas elevações hormonais incapazes de serem detectadas pelos métodos diagnósticos disponíveis atualmente.

O endocrinologista Dr. Leonardo Vieira Neto, do HCFF-UFRJ, autor do trabalho, falou ao Medscape sobre os dados encontrados.

A partir do estudo retrospectivo e transversal, os médicos avaliaram 164 pacientes de duas instituições do Rio de Janeiro: Hospital Clementino Fraga Filho (HCFF-UFRJ) e Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia Luiz Capriglione. Desse total, 74 tinham incidentaloma adrenal não funcionante e 90 não apresentavam lesões na suprarrenal (controles). Pacientes e controles apresentaram idade, gênero, etnicidade, índice de massa corporal (IMC), statusde tabagismo, menopausa e uso de estatina e fibrato semelhantes.

A equipe identificou diferenças com relação à circunferência da cintura, com valores maiores nos pacientes com lesão na suprarrenal. O grupo com incidentaloma adrenal não funcionante também apresentou índices maiores de cintura e quadril (ICQ), bem como maior prevalência de pré-diabetes, maior frequência de dislipidemia, de colesterol não-HDL elevado, e de hipertensão.

Quanto à síndrome metabólica, os pesquisadores utilizaram quatro critérios diferentes para o diagnóstico: os da Organização Mundial da Saúde (OMS), os do National Cholesterol Education Program-Adult Treatment Panel III (NCEP-ATP III),[3,4] os da American Association of Clinical Endocrinologists/American College of Endocrinology (AACE/ACE) e os d International Diabetes Federation (IDF).

A frequência da síndrome metabólica foi maior no grupo com incidentaloma adrenal não funcionante do que nos controles, independentemente da classificação usada: 69,2% vs. 31,0% (P < 0,001) pela definição da OMS; 81,7% vs. 44,9% (P < 0,001) de acordo com a classificação NCEP-ATP III; 77,1% vs.31,9% (P < 0,001) segundo o AACE/ACE e 78,6% vs. 45,5% (P < 0,001) pelo consenso global da IDF. De acordo com a classificação de OMS, NCEP-ATP III AACE/ACE, o incidentaloma adrenal não funcionante foi um preditor independente para síndrome metabólica.

O Dr. Leonardo disse que, atualmente, os incidentalomas adrenais não funcionantes, tumores detectados por acaso em tomografias e ressonâncias magnéticas realizadas por queixas não relacionadas com possíveis problemas na suprarrenal, são consideradas lesões benignas e teoricamente não causam aumentos na secreção de hormônios – cortisol, aldosterona, catecolaminas e metanefrinas.

Segundo o especialista, a frequência dos incidentalomas adrenais não funcionantes vem aumentando nos últimos anos, porém não se sabe se esse crescimento representa, de fato, aumento na incidência da doença ou se reflete apenas o aumento do número de diagnósticos, em função da ampliação ao acesso a exames de imagem.

“Hoje é muito mais fácil um paciente fazer uma tomografia computadorizada, uma ressonância magnética do que há 20 anos, portanto, é possível que a incidência continue a mesma, mas que só estejamos diagnosticando mais a doença. Ou ela pode realmente estar aumentando. Nesse caso, seria necessário desenvolver estudos para investigar possíveis causas desse aumento”, ponderou.

Embora a frequência da síndrome metabólica venha sendo estudada em tumores da suprarrenal associados ao aumento da secreção de cortisol, até então, poucos estudos investigaram a frequência da doença em pacientes com incidentaloma adrenal não funcionante. Eles focavam nas lesões funcionantes da suprarrenal devido à conhecida associação entre cortisol e os componentes da síndrome metabólica, ou seja, sabe-se que esse hormônio pode aumentar a pressão arterial, os níveis de glicose e de triglicerídeos, causando aumento de peso.

A associação entre os incidentalomas adrenais não funcionantes e a síndrome metabólica revelada no estudo da UFRJ corrobora os dados de trabalhos anteriores observados pelo grupo e traz uma nova perspectiva. Mas, para o Dr. Leonardo, os achados não são totalmente inesperados, pois, a equipe defende a hipótese de que, na verdade, essas lesões não são efetivamente tumores sem função: “acreditamos que esses tumores secretam alguma coisa, mas os métodos diagnósticos disponíveis não são sensíveis o suficiente para detectar esses pequenos incrementos, essas pequenas elevações de um ou mais hormônios produzidos pela suprarrenal. Um dos atuais objetivos da nossa linha de pesquisa é identificar quais são esses hormônios. Para isso, estamos usando outros métodos diagnósticos, mais complexos, mais sensíveis e específicos para tentar detectar qual ou quais hormônios podem estar por trás desse resultado”, destacou.

Segundo o endocrinologista, os achados do estudo, bem como as demais evidências da literatura, reforçam a ideia de que os médicos devem ter um cuidado especial com todos os pacientes com incidentaloma adrenal – funcionante ou não – em relação a pressão arterial, glicose e controle de peso.

No entanto, a conduta terapêutica frente à lesão ainda é controversa. O Dr. Leonardo explicou que, no caso de tumores funcionantes que secretam cortisol, adolsterona, catecolaminas e metanefrinas, a indicação de ressecção está bem consolidada, porém o mesmo não ocorre com as lesões classificadas atualmente como não funcionantes.

“Precisamos de estudos mais robustos para saber qual é o impacto da cirurgia, e se ela levaria ou não à melhora da síndrome metabólica. Esse é outro passo e, no momento, não temos essa resposta na literatura, até porque, a associação entre essa lesão e a síndrome metabólica ainda é um dado muito novo”, esclareceu.

 

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