16/06/2019 - Notícias
O MDMA (3,4 metilenodioximetanfentamina), princípio ativo da droga ecstasy, pode contribuir para as pessoas voltarem a confiar umas nas outras, segundo resultados de um pequeno estudo feito com homens saudáveis.
A equipe de pesquisadores britânicos responsável por esse ensaio clínico cruzado, duplo-cego, controlado com placebo revelou que os homens que receberam 100 mg de MDMA – conhecido por influenciar as interações pessoais – tiveram mais chance de cooperar com alguém confiável, em comparação com os participantes do grupo de controle que receberam placebo. Os pesquisadores também observaram alterações da atividade nas regiões do cérebro relacionadas com a cognição social.
“O que achamos realmente interessante sobre os nossos resultados foi que, através do paradigma da teoria dos jogos, pudemos perceber que o MDMA aumentou a predisposição de cooperar com parceiros”, disse ao Medscape o pesquisador responsável Dr. Anthony S. Gabay, Ph.D., pós-doutorando na University of Oxford, no Reino Unido.
“Mas, o surpreendente foi que isso ocorreu apenas quando os participantes estavam interagindo com alguém que já consideravam confiável”, disse Dr. Anthony. “O que significa que quando a interação se deu entre pessoas não confiáveis, o MDMA não modificou em nada o comportamento e não fez com que as pessoas cooperassem ingenuamente com parceiros que não cooperavam com elas”.
O estudo foi publicado on-line em 19 de novembro no periódico Journal of Neuroscience.
A tomada de decisão social é parte integral do funcionamento social bem-sucedido, mas pode ser influenciada negativamente tanto por doenças psiquiátricas como pela modulação serotoninérgica. Os medicamentos atuais não são efetivos no tratamento dos déficits cognitivos sociais.
Novas evidências sugerem que a manipulação do sistema serotoninérgico pode influenciar positivamente a tomada de decisão social. O MDMA tem mostrado a capacidade de produzir efeitos sociais e emocionais importantes, especialmente em relação às interações pessoais.
Para testar o efeito do MDMA na cooperação, os pesquisadores utilizaram o conhecido jogo O Dilema dos Prisioneiros, no qual é simulada uma situação em que dois jogadores seriam criminosos parceiros que foram recém-capturados pela polícia e separados em salas diferentes. Neste contexto, um policial oferece a seguinte alternativa para cada um: se apenas um confessar o crime, quem confessou será solto e o outro pegará uma pena grande; se os dois confessarem, ambos cumprirão uma pena intermediária e se os dois se mantiverem calados (cooperarem entre si) ainda assim cumprirão pena, mas será pequena. O cenário ideal, de não cumprir pena só é possível se um parceiro trair o outro, mas isso dependerá de o outro ser fiel a ele. Os jogadores não têm como saber qual será a resposta do parceiro, portanto, precisam decidir se cooperam ou o traem pautados apenas na confiança.
Este jogo mobiliza várias regiões do cérebro ativadas no processamento social, como o sulco temporal superior, a junção temporoparietal e o giro cingulado posterior.
Os pesquisadores também testaram outros componentes da cognição social, como tarefas de reconhecimento de emoções e empatia.
No total, 21 homens ingressaram no estudo. Todos haviam tido ao menos uma experiência anterior com MDMA; 20 pacientes (média de idade de 24,8 ± 3,7 anos) completaram o estudo. Os participantes não tinham história de doenças psiquiátricas ou outros distúrbios neurológicos.
Convidado a comentar sobre a pesquisa para o Medscape, o Dr. Matthew W. Johnson, Ph.D., professor associado de medicina da Johns Hopkins University School of Medicine, em Baltimore, Maryland, que não participou do estudo, disse que, embora os resultados sejam compatíveis com os relatos informais de que o MDMA pode aumentar o vínculo social e o relacionamento entre as pessoas, o efeito não é absoluto.
Este efeito “só foi observado com as pessoas que os trataram de forma no mínimo justa na maior parte do tempo. O MDMA permitiu que as pessoas reestabelecessem a cooperação mais rapidamente, mas não fez com que os participantes se deixassem levar”, observou.
“Isto é compatível com a ideia de que o MDMA aumenta o relacionamento e a confiança entre um paciente e um terapeuta compassivo durante o tratamento do transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), transtorno para o qual o MDMA tem mostrado resultados promissores”.
“Isso é importante, porque sabemos que esse relacionamento é fundamental para potencializar o sucesso da psicoterapia, e sabemos que o relacionamento e a confiança são, compreensivelmente, difíceis para pacientes que lidam com TEPT”, acrescentou.